O combustÃvel de reserva é a quantidade mÃnima de combustÃvel que deve estar a bordo além do necessário para completar o voo planejado. No Brasil, o RBAC 91.167 exige 45 minutos de reserva final para IFR e 30 minutos para VFR. Calcular errado é uma das principais causas de incidentes por pane seca.
Neste artigo
- O que é combustÃvel de reserva e por que é obrigatório?
- Qual a fórmula ICAO de planejamento de combustÃvel?
- Quanto combustÃvel de reserva é necessário para IFR?
- Quanto combustÃvel de reserva é necessário para VFR?
- Como calcular combustÃvel de contingência?
- Quando o combustÃvel de alternativa é obrigatório?
- Exemplos práticos de cálculo completo
- Quais os erros mais comuns no cálculo de combustÃvel?
- Perguntas frequentes
O que é combustÃvel de reserva e por que é obrigatório?
CombustÃvel de reserva é a parcela de combustÃvel que o piloto deve carregar além do necessário para completar a rota planejada. Ele garante margem de segurança contra imprevistos como mudança de rota, espera em voo, condições meteorológicas adversas e desvios para alternativas.
Definição: CombustÃvel de reserva é composto por contingência, alternativa, reserva final e extra. Cada parcela tem finalidade especÃfica definida pelo ICAO Annex 2 e pelo RBAC 91.167.
A legislação brasileira trata o combustÃvel de reserva como requisito de segurança inegociável. Decolar com combustÃvel insuficiente configura violação regulatória e pode resultar em suspensão da licença. Além da penalidade administrativa, a pane seca é uma das principais causas de acidentes na aviação geral brasileira segundo o CENIPA.
O piloto em comando é o responsável final por verificar que o combustÃvel a bordo atende a todos os requisitos regulatórios antes de cada voo. Essa verificação faz parte do briefing pré-voo obrigatório.
Qual a fórmula ICAO de planejamento de combustÃvel?
A fórmula ICAO de planejamento de combustÃvel define seis parcelas que, somadas, determinam o combustÃvel mÃnimo a bordo. Essa fórmula é adotada pelo Brasil através do RBAC 91 e RBAC 121.
A fórmula completa é:
- CombustÃvel de táxi — consumo estimado desde a partida dos motores até o alinhamento na pista
- CombustÃvel de viagem (trip fuel) — consumo da decolagem até o pouso no destino
- CombustÃvel de contingência — margem sobre o trip fuel para imprevistos em rota
- CombustÃvel de alternativa — consumo do destino até o aeródromo de alternativa
- Reserva final — mÃnimo regulatório inviolável (45 min IFR ou 30 min VFR)
- CombustÃvel extra — a critério do piloto, para condições especÃficas
A fórmula expressa matematicamente:
CombustÃvel a bordo = Táxi + Trip + Contingência + Alternativa + Reserva Final + Extra
Cada parcela deve ser calculada usando dados de performance da aeronave para a altitude, temperatura e peso planejados. Usar consumos genéricos ou de tabela sem ajuste leva a erros significativos.
Comparação das parcelas de combustÃvel IFR vs VFR
| Parcela | IFR | VFR | Observação |
|---|---|---|---|
| Táxi | 5 litros tÃpico | 5 litros tÃpico | Varia conforme aeródromo |
| Trip fuel | Calculado por trecho | Calculado por trecho | Maior componente |
| Contingência | 5% do trip fuel | 5% do trip fuel | MÃnimo ICAO |
| Alternativa | Obrigatório quase sempre | Raramente obrigatório | Ver condições abaixo |
| Reserva final | 45 minutos | 30 minutos | RBAC 91.167 |
| Extra | A critério do PIC | A critério do PIC | Recomendado sempre |
Quanto combustÃvel de reserva é necessário para IFR?
Para voos IFR, o RBAC 91.167 exige reserva final de 45 minutos de voo na velocidade normal de cruzeiro. Essa reserva é inviolável e não pode ser planejada para uso em nenhuma circunstância normal.
Definição: Reserva final (final reserve) é o combustÃvel que permite voar por 45 minutos (IFR) ou 30 minutos (VFR) na velocidade de cruzeiro após esgotar todas as outras reservas. Ela existe para cobrir situações que excedem todas as contingências planejadas.
Os 45 minutos IFR consideram cenários como procedimentos de espera (holding) não previstos, aproximações frustradas, e vetores ATC prolongados. Um piloto IFR que aterrissa com menos de 45 minutos de combustÃvel remanescente deve declarar situação de emergência (fuel emergency).
Como calcular os 45 minutos em litros
Para converter os 45 minutos em volume, use o consumo horário de cruzeiro da aeronave:
Reserva final (litros) = Consumo horário de cruzeiro x 0,75
Exemplo com Cessna 172 (consumo 32 L/h):
- Reserva final = 32 x 0,75 = 24 litros
Exemplo com King Air C90 (consumo 280 L/h):
- Reserva final = 280 x 0,75 = 210 litros
Esses valores representam o mÃnimo absoluto. Planeje sempre acima.
Quanto combustÃvel de reserva é necessário para VFR?
Para voos VFR, o RBAC 91.151 exige reserva final de 30 minutos de voo na velocidade normal de cruzeiro durante o dia. Para voos VFR noturnos, a reserva aumenta para 45 minutos, equiparando-se ao IFR.
A diferença de 15 minutos entre IFR e VFR reflete a maior complexidade operacional do voo por instrumentos. Em IFR, o piloto pode ser obrigado a realizar holdings, aproximações frustradas e desvios que consomem mais combustÃvel que o planejado.
Resumo das reservas finais por tipo de voo
| Tipo de voo | Reserva final mÃnima | Base legal |
|---|---|---|
| VFR diurno | 30 minutos | RBAC 91.151 |
| VFR noturno | 45 minutos | RBAC 91.151 |
| IFR | 45 minutos | RBAC 91.167 |
Para voos VFR diurnos, os 30 minutos são calculados da mesma forma:
Reserva final VFR (litros) = Consumo horário de cruzeiro x 0,50
Exemplo com Cessna 172 (consumo 32 L/h):
- Reserva final VFR = 32 x 0,50 = 16 litros
Como calcular combustÃvel de contingência?
O combustÃvel de contingência cobre imprevistos durante o voo que aumentam o consumo acima do planejado. O padrão ICAO estabelece o mÃnimo de 5% do combustÃvel de viagem (trip fuel).
Os imprevistos cobertos pela contingência incluem: desvios de rota por meteorologia, ventos diferentes do previsto, diferença entre o nÃvel de cruzeiro planejado e o efetivamente autorizado pelo ATC, e variações de consumo da aeronave.
Métodos de cálculo da contingência
A ICAO permite três métodos para calcular a contingência:
- 5% do trip fuel — método padrão, aplicável a qualquer operação
- Análise estatÃstica — operadores com dados históricos podem usar mÃnimo de 3% (RBAC 121)
- Re-dispatch — planejamento com ponto de re-decisão (somente operadores certificados)
Para aviação geral, o método de 5% do trip fuel é o único aplicável.
Contingência (litros) = Trip fuel x 0,05
Exemplo: se o trip fuel é 100 litros, a contingência mÃnima é 5 litros. Parece pouco, mas em voos longos a diferença é significativa. Um trip fuel de 400 litros exige 20 litros de contingência.
O erro dos 10% conservadores
Alguns pilotos e escolas usam 10% de contingência como padrão conservador. Embora carregar combustÃvel extra nunca seja proibido, o excesso tem consequências. Peso adicional aumenta o consumo, reduz o teto de serviço e pode exceder os limites de peso máximo de decolagem. O correto é calcular 5% e adicionar combustÃvel extra separadamente se necessário.
Quando o combustÃvel de alternativa é obrigatório?
O combustÃvel de alternativa é o necessário para voar do aeródromo de destino até o aeródromo de alternativa. Para IFR, o aeródromo de alternativa é obrigatório exceto quando o destino tem duas aproximações independentes por instrumentos e o METAR/TAF indica condições acima dos mÃnimos.
Definição: Aeródromo de alternativa é o aeródromo selecionado para pouso caso o pouso no destino não seja possÃvel. O RBAC 91.169 define as condições em que a alternativa é exigida para IFR.
Condições que exigem alternativa IFR
O piloto IFR deve listar um aeródromo de alternativa no plano de voo quando:
- O TAF do destino indica teto abaixo de 2.000 ft ou visibilidade abaixo de 5 km, no perÃodo de 1 hora antes até 1 hora depois da hora estimada de chegada
- Não há procedimento de aproximação por instrumentos publicado no destino
- O aeródromo de destino possui apenas uma aproximação por instrumentos
Para VFR, a alternativa raramente é obrigatória formalmente, mas é fortemente recomendada como prática de segurança.
Como calcular o combustÃvel de alternativa
O combustÃvel de alternativa é calculado com base na distância e consumo para voar do destino até a alternativa:
Alternativa (litros) = Distância (NM) / Velocidade (kt) x Consumo horário (L/h)
Exemplo: Alternativa a 80 NM, aeronave a 120 kt com consumo de 32 L/h:
- Tempo = 80/120 = 0,67 horas = 40 minutos
- CombustÃvel = 0,67 x 32 = 21,3 litros
Exemplos práticos de cálculo completo
Exemplo 1: Cessna 172 — VFR diurno (SBJR para SBRJ)
Dados da aeronave:
- Consumo de cruzeiro: 32 L/h (avgas 100LL)
- Velocidade de cruzeiro: 110 KTAS
- Capacidade de combustÃvel: 212 litros (utilizáveis)
Dados do voo:
- Rota: Jacarepaguá (SBJR) → Santos Dumont (SBRJ)
- Distância: 25 NM
- Tempo estimado de voo: 14 minutos
Cálculo:
| Parcela | Cálculo | Litros |
|---|---|---|
| Táxi | Padrão SBJR | 5,0 |
| Trip fuel | (14/60) x 32 | 7,5 |
| Contingência 5% | 7,5 x 0,05 | 0,4 |
| Alternativa | Não obrigatória VFR | 0,0 |
| Reserva final 30 min | (30/60) x 32 | 16,0 |
| Extra | A critério PIC | 5,0 |
| Total mÃnimo | 33,9 |
CombustÃvel a bordo mÃnimo: 33,9 litros (sem extra: 28,9 litros).
Autonomia com tanques cheios: 212/32 = 6 horas 37 minutos.
Neste voo curto, o combustÃvel não é limitante. Ainda assim, o piloto deve verificar que os tanques contêm pelo menos 34 litros antes da decolagem.
Exemplo 2: King Air C90 — IFR (SBSP para SBBH)
Dados da aeronave:
- Consumo de cruzeiro: 280 L/h (Jet-A1)
- Velocidade de cruzeiro: 220 KTAS
- Capacidade de combustÃvel: 1.420 litros (utilizáveis)
Dados do voo:
- Rota: Congonhas (SBSP) → Confins (SBBH)
- Distância: 290 NM
- NÃvel de cruzeiro: FL180
- Alternativa: Pampulha (SBBH alternativa SBCF, distância 20 NM)
- Tempo estimado de voo: 1h19min
Cálculo:
| Parcela | Cálculo | Litros |
|---|---|---|
| Táxi | Padrão SBSP (taxi longo) | 15,0 |
| Trip fuel | (79/60) x 280 | 368,7 |
| Contingência 5% | 368,7 x 0,05 | 18,4 |
| Alternativa (20 NM) | (20/220) x 280 / 60 min | 25,5 |
| Reserva final 45 min | (45/60) x 280 | 210,0 |
| Extra | Previsão de holding SBBH | 50,0 |
| Total mÃnimo | 687,6 |
CombustÃvel a bordo mÃnimo: 687,6 litros (sem extra: 637,6 litros).
O King Air tem capacidade de 1.420 litros, portanto combustÃvel não é limitante. Mas em trechos mais longos (SBSP-SBSV, ~680 NM), o cálculo completo pode exigir escala técnica.
Como calcular a autonomia (fuel endurance)
A autonomia é o tempo máximo que a aeronave pode permanecer em voo com o combustÃvel a bordo:
Autonomia (horas) = CombustÃvel utilizável (litros) / Consumo horário (L/h)
Esta é a autonomia bruta. A autonomia útil desconta a reserva obrigatória:
Autonomia útil = (CombustÃvel utilizável - Reserva final) / Consumo horário
Exemplo C172:
- Autonomia bruta: 212/32 = 6h37min
- Autonomia útil VFR: (212 - 16)/32 = 6h07min
- Autonomia útil IFR: (212 - 24)/32 = 5h52min
Quais os erros mais comuns no cálculo de combustÃvel?
Pilotos cometem erros recorrentes no planejamento de combustÃvel. Os mais frequentes identificados pelo CENIPA e por instrutores são:
Esquecer o combustÃvel de táxi — Em aeroportos movimentados como Congonhas e Guarulhos, o tempo de táxi pode exceder 15 minutos. Ignorar esse consumo compromete toda a margem.
Usar contingência errada — Aplicar 5% sobre o total em vez de 5% sobre o trip fuel. A contingência incide somente sobre o combustÃvel de viagem, não sobre o total.
Não recalcular com vento — Um vento de proa de 20 nós pode aumentar o tempo de voo em 15-20%. O trip fuel deve ser calculado com a velocidade sobre o solo (GS), não a TAS.
Confundir combustÃvel total com utilizável — Aeronaves têm combustÃvel não utilizável (inaccessÃvel) nos tanques. A capacidade de planejamento é sempre a utilizável.
Ignorar o consumo na subida — A subida consome 30-50% mais combustÃvel por hora que o cruzeiro. Em voos curtos, a subida representa parcela significativa do trip fuel.
Considerar a reserva final como disponÃvel — A reserva de 45 ou 30 minutos é para emergência. Pousar com combustÃvel na reserva final exige declaração de emergência de combustÃvel.
Não verificar as condições do destino — Se o TAF indica possibilidade de holding, o combustÃvel extra deve cobrir esse cenário. Holding em IFR consome o mesmo que cruzeiro.
Desconsiderar altitude e temperatura — O consumo varia com altitude e temperatura. Aeronaves a pistão consomem menos em altitude por menor arrasto, mas turbinas podem consumir mais se acima do nÃvel ótimo.
Perguntas frequentes
Quantos minutos de reserva final são obrigatórios para IFR?
O RBAC 91.167 exige 45 minutos de reserva final para voos IFR, calculados na velocidade normal de cruzeiro. Essa reserva é inviolável e existe para cobrir situações que excedem todas as contingências planejadas, como múltiplas aproximações frustradas.
Quantos minutos de reserva final são obrigatórios para VFR?
O RBAC 91.151 exige 30 minutos de reserva final para voos VFR diurnos e 45 minutos para VFR noturnos. A reserva noturna é igual à IFR porque as condições de operação visual à noite apresentam riscos similares ao voo por instrumentos.
Qual a porcentagem correta de contingência ICAO?
A contingência mÃnima ICAO é 5% do combustÃvel de viagem (trip fuel). Essa porcentagem incide exclusivamente sobre o trip fuel, não sobre o total. Operadores com dados estatÃsticos podem usar 3% sob aprovação da ANAC, mas para aviação geral o padrão é sempre 5%.
Quando o combustÃvel de alternativa é obrigatório?
Para IFR, o combustÃvel de alternativa é obrigatório quando o TAF do destino indica teto abaixo de 2.000 ft ou visibilidade abaixo de 5 km no perÃodo de 1 hora antes a 1 hora depois da chegada prevista. Também é exigido quando não há procedimento de aproximação no destino.
Quanto combustÃvel de táxi devo considerar?
O combustÃvel de táxi padrão para aviação geral é de aproximadamente 5 litros (monomotor a pistão). Em aeroportos com táxi longo como Guarulhos ou Galeão, considere 10-15 litros. Para turbinas, consulte o manual da aeronave para consumo em solo.
Como calcular a autonomia de combustÃvel?
Divida o combustÃvel utilizável pelo consumo horário de cruzeiro. Para autonomia útil, subtraia a reserva final antes de dividir. Exemplo: 212 litros utilizáveis, consumo de 32 L/h, reserva IFR 24 litros = (212-24)/32 = 5h52min de autonomia útil.
O que acontece se o combustÃvel é insuficiente durante o voo?
Se durante o voo o piloto identificar que o combustÃvel será insuficiente para completar o voo com as reservas obrigatórias, deve declarar situação de emergência (MAYDAY FUEL) ao ATC. Pousar com combustÃvel abaixo da reserva final configura emergência e exige reporte ao CENIPA.
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Fontes: RBAC 91.151 e RBAC 91.167 (CombustÃvel mÃnimo para VFR e IFR), ICAO Annex 2 (Rules of the Air — Fuel Requirements), ICAO Doc 4444 (PANS-ATM), CENIPA (Relatórios de acidentes por pane seca).
