A vigilância aérea nas bacias petrolíferas brasileiras está sendo transformada pelo ADS-B (Automatic Dependent Surveillance — Broadcast). Onde antes existia um vazio de cobertura radar que deixava helicópteros offshore invisíveis para o controle de tráfego durante a maior parte do voo, agora estações ADS-B instaladas em plataformas de petróleo estendem a vigilância contínua até centenas de milhas náuticas da costa. Este guia detalha como o ADS-B offshore funciona, qual seu impacto nas operações de helicóptero, os requisitos para operadores e as perspectivas de cobertura completa das bacias brasileiras.
Neste artigo
- O que é ADS-B e como funciona?
- O problema: lacunas de vigilância offshore
- ADS-B offshore: a solução para bacias petrolíferas
- Cobertura das bacias brasileiras
- Infraestrutura: estações em plataformas
- Impacto nas operações de helicóptero
- Requisitos de equipamento para operadores
- Integração com SAR e operações de emergência
- Comparação internacional: Mar do Norte e Golfo do México
- Perspectivas futuras e vigilância baseada em espaço
- Perguntas frequentes
O que é ADS-B e como funciona?
ADS-B (Automatic Dependent Surveillance — Broadcast) é um sistema de vigilância aérea no qual a aeronave calcula sua própria posição via satélite (GNSS) e transmite automaticamente essas informações em broadcast para qualquer receptor dentro do alcance. O ADS-B é o pilar da modernização da vigilância aérea global e está substituindo progressivamente o radar como meio primário de vigilância em muitas regiões do mundo.
Definição: ADS-B (Automatic Dependent Surveillance — Broadcast) é um sistema de vigilância aérea que combina dados de posição obtidos por GNSS (GPS) com transmissão automática de dados de identificação, posição, altitude, velocidade e intenção da aeronave. A informação é transmitida continuamente em broadcast, podendo ser recebida por estações terrestres, outras aeronaves e satélites.
Componentes do ADS-B
O sistema ADS-B é composto por três elementos:
ADS-B Out — O transmissor na aeronave que emite os dados de posição e identificação. Todas as aeronaves que operam em espaço aéreo com requisito ADS-B devem ter ADS-B Out funcional.
ADS-B In — O receptor na aeronave que recebe dados de outras aeronaves equipadas. Permite ao piloto visualizar o tráfego no cockpit (CDTI — Cockpit Display of Traffic Information). Não é obrigatório na maioria das regulamentações.
Estação terrestre — O receptor no solo (ou em plataforma offshore) que coleta os dados ADS-B Out das aeronaves e os retransmite para o sistema de controle de tráfego aéreo.
Como os dados são transmitidos
| Parâmetro | Descrição | Atualização |
|---|---|---|
| Identificação (ICAO 24-bit) | Código único da aeronave | Constante |
| Indicativo de chamada | Callsign do voo | Constante |
| Posição (latitude/longitude) | Via GNSS | 1 Hz (1x/segundo) |
| Altitude barométrica | Via altímetro | 1 Hz |
| Altitude geométrica (GNSS) | Via GNSS | 1 Hz |
| Velocidade sobre o solo | Via GNSS | 1 Hz |
| Proa | Via GNSS | 1 Hz |
| Taxa de subida/descida | Calculada | 1 Hz |
| Categoria de emissão | Tipo de aeronave | Constante |
A frequência de transmissão padrão é 1090 MHz Extended Squitter (1090ES) para aeronaves de transporte e 978 MHz UAT para aviação geral em espaço aéreo inferior (apenas nos EUA). No Brasil, o padrão adotado é 1090ES.
O problema: lacunas de vigilância offshore
O litoral brasileiro possui a maior concentração de atividade petrolífera offshore da América do Sul. As bacias de Campos, Santos, Espírito Santo e Sergipe-Alagoas estão localizadas a distâncias significativas da costa, onde a cobertura radar terrestre simplesmente não alcança.
A limitação do radar
Radares de vigilância aérea (PSR e SSR) instalados no continente têm alcance limitado pela curvatura da Terra e por obstáculos topográficos. Para aeronaves voando em altitudes baixas — como helicópteros offshore que tipicamente cruzam entre 1.000 e 3.000 ft — a cobertura radar efetiva termina entre 60 e 100 NM da costa, dependendo da altitude e da elevação da estação radar.
| Altitude da aeronave | Alcance radar teórico | Alcance radar prático | Cobertura offshore |
|---|---|---|---|
| 3.000 ft | 89 NM | 70 NM | Parcial |
| 1.500 ft | 63 NM | 50 NM | Limitada |
| 500 ft | 36 NM | 25 NM | Mínima |
As plataformas petrolíferas nas bacias de Campos e Santos estão localizadas entre 80 e 250 NM da costa. Isso significa que helicópteros operando nessas áreas passam grande parte do voo fora de qualquer cobertura radar.
Consequências da lacuna
A ausência de vigilância radar offshore tem consequências operacionais e de segurança significativas:
Separação procedural — Sem vigilância, o controle de tráfego aplica separação procedural (baseada em tempo e posição reportada), que é significativamente maior que a separação radar. Isso reduz a capacidade do espaço aéreo e limita o número de operações simultâneas.
Localização em emergência — Em caso de acidente ou amerissagem (ditching), a última posição conhecida pode estar a dezenas de milhas da posição real, dificultando operações de busca e salvamento.
Consciência situacional — O controlador de tráfego não tem visualização contínua das aeronaves offshore, dependendo de reports de posição por rádio HF/VHF, que podem ter atrasos e imprecisões.
Conflito de tráfego — Sem vigilância, o potencial de conflito entre aeronaves (helicópteros operando entre plataformas) aumenta, especialmente em áreas de alta densidade como o campo de Marlim na Bacia de Campos.
Para pilotos que operam em ambientes offshore, a avaliação de risco é fundamental. Consulte o guia sobre FRAT — avaliação de risco de voo para entender como incorporar fatores offshore na avaliação pré-voo.
ADS-B offshore: a solução para bacias petrolíferas
A instalação de estações receptoras ADS-B em plataformas de petróleo resolve o problema de cobertura ao criar uma rede de vigilância que se estende sobre as áreas oceânicas onde o radar terrestre não alcança.
Conceito operacional
O conceito é elegante em sua simplicidade: em vez de tentar estender o alcance dos radares (o que exigiria instalações flutuantes massivas e caras), aproveita-se a infraestrutura existente das plataformas de petróleo para instalar receptores ADS-B compactos e de baixo consumo energético.
Cada estação ADS-B instalada em uma plataforma recebe os dados transmitidos por aeronaves equipadas com ADS-B Out em um raio de aproximadamente 150-200 NM (para aeronaves a 3.000 ft de altitude). Os dados são retransmitidos em tempo real via link de comunicação da plataforma (satélite ou fibra óptica submarina) para o centro de controle de tráfego aéreo no continente.
Definição: ADS-B offshore é a aplicação do sistema de vigilância ADS-B em áreas oceânicas distantes da costa, utilizando estações receptoras instaladas em plataformas de petróleo, FPSOs (Floating Production Storage and Offloading) e outras instalações offshore para criar cobertura de vigilância contínua onde o radar convencional não alcança.
Vantagens sobre o radar
| Característica | Radar SSR | ADS-B offshore |
|---|---|---|
| Custo da estação | Milhões de R$ | Dezenas de milhares de R$ |
| Tamanho da instalação | Grande (antena + shelter) | Compacto (caixa 30x30 cm) |
| Consumo energético | Dezenas de kW | Dezenas de W |
| Manutenção | Complexa, especializada | Simples, remota |
| Alcance (3.000 ft) | 70 NM | 200 NM |
| Precisão de posição | 0,1 NM (dependente de alcance) | 0,01 NM (GNSS-based) |
| Taxa de atualização | 4-12 segundos (rotação da antena) | 1 segundo (1090ES) |
| Instalação em plataforma | Impraticável | Viável |
A relação custo-benefício é decisiva: uma estação ADS-B custa uma fração de um radar e oferece cobertura superior para aeronaves equipadas. A única limitação é que o ADS-B depende do transponder da aeronave — aeronaves sem ADS-B Out não são detectadas.
Cobertura das bacias brasileiras
O DECEA, em parceria com a Petrobras e outras operadoras, está expandindo progressivamente a cobertura ADS-B offshore nas principais bacias petrolíferas brasileiras.
Bacia de Campos
A Bacia de Campos, localizada entre os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo, é a mais antiga e uma das maiores áreas de produção offshore do Brasil. Concentra centenas de plataformas e gera o maior volume de operações de helicóptero offshore do país.
| Área | Distância da costa | Plataformas com ADS-B | Cobertura |
|---|---|---|---|
| Campo de Marlim | 100-120 NM | 6 | 95% |
| Campo de Roncador | 130 NM | 4 | 90% |
| Campo de Barracuda | 90 NM | 3 | 85% |
| Campos Norte | 80-100 NM | 5 | 90% |
| Campos Sul | 110-140 NM | 4 | 80% |
A Bacia de Campos foi a primeira a receber cobertura ADS-B offshore no Brasil, iniciando com estações experimentais em 2020 e expandindo para cobertura operacional a partir de 2023.
Bacia de Santos
A Bacia de Santos, que inclui os campos do pré-sal (Lula, Búzios, Sapinhoá), está localizada mais distante da costa (150-250 NM) e é a fronteira de expansão da cobertura ADS-B offshore.
| Área | Distância da costa | Plataformas com ADS-B | Cobertura |
|---|---|---|---|
| Campo de Lula | 180-200 NM | 5 | 75% |
| Campo de Búzios | 200-220 NM | 3 | 60% |
| Campo de Sapinhoá | 190 NM | 2 | 55% |
| Campo de Tupi | 170 NM | 3 | 70% |
A distância elevada da Bacia de Santos apresenta desafios adicionais para a retransmissão dos dados ADS-B ao continente, exigindo links satelitais de maior capacidade ou relay via plataformas intermediárias.
Bacia do Espírito Santo
A Bacia do Espírito Santo, mais próxima da costa, apresenta cobertura parcial por radar terrestre combinada com ADS-B:
| Área | Distância da costa | Cobertura combinada |
|---|---|---|
| Campos costeiros | 30-60 NM | 100% (radar + ADS-B) |
| Campos intermediários | 60-100 NM | 95% (ADS-B dominante) |
| Campos distantes | 100-130 NM | 80% (ADS-B) |
Infraestrutura: estações em plataformas
A instalação de estações ADS-B em plataformas offshore apresenta desafios únicos de engenharia, mas a tecnologia moderna permite soluções compactas e robustas.
Especificações técnicas
Uma estação ADS-B offshore típica consiste em:
| Componente | Especificação | Observação |
|---|---|---|
| Receptor 1090ES | Sensibilidade -90 dBm | Dupla redundância |
| Antena | Omnidirecional, ganho 5 dBi | Instalação no topo da plataforma |
| Processador | ARM-based, Linux embarcado | Baixo consumo |
| Comunicação | Satélite VSAT + backup 4G | Latência < 2 segundos |
| Alimentação | 24V DC, 15W | Compatível com UPS da plataforma |
| Caixa | IP67, aço inoxidável AISI 316L | Resistente a ambiente marinho |
| Temperatura operacional | -10 a +55 graus Celsius | Sem ventilação forçada |
Desafios de instalação
O ambiente offshore impõe desafios específicos:
Corrosão marinha — O ar salino e a névoa marinha aceleram a corrosão de componentes metálicos. Todas as instalações utilizam materiais resistentes (inox 316L, alumínio anodizado) e revestimentos anticorrosivos especiais.
Vibração — Plataformas e FPSOs estão sujeitos a vibração contínua por ondas, vento e equipamentos de produção. As estações ADS-B são montadas com isoladores de vibração para proteger componentes eletrônicos.
Interferência eletromagnética — Equipamentos de comunicação, radar meteorológico e sistemas de posicionamento dinâmico das plataformas geram interferência. A instalação requer estudo de compatibilidade eletromagnética (EMC).
Logística de manutenção — Qualquer manutenção requer deslocamento de técnicos por helicóptero ou embarcação, com custo elevado. Por isso, as estações são projetadas para operação autônoma prolongada com monitoramento remoto.
Alimentação elétrica — As estações devem ser compatíveis com o sistema elétrico da plataforma e ter backup por bateria para operação durante manutenções do sistema elétrico principal.
Rede de comunicação
Os dados ADS-B coletados nas plataformas são transmitidos ao continente por meio de:
- VSAT (Very Small Aperture Terminal) — Comunicação satelital com latência de 500-1.500 ms, adequada para dados ADS-B que toleram até 2 segundos de latência.
- Fibra óptica submarina — Disponível em algumas plataformas próximas da costa, oferecendo latência mínima e alta confiabilidade.
- Relay entre plataformas — Plataformas intermediárias retransmitem dados de plataformas mais distantes, criando uma rede mesh que aumenta a redundância.
Impacto nas operações de helicóptero
O ADS-B offshore transforma fundamentalmente as operações de helicóptero nas bacias petrolíferas, trazendo benefícios diretos para segurança, eficiência e capacidade.
Mudança de separação procedural para radar-like
O impacto mais significativo é a transição de separação procedural para separação baseada em vigilância (radar-like):
| Aspecto | Separação procedural (sem radar) | Separação com ADS-B |
|---|---|---|
| Separação lateral | 10 NM | 5 NM |
| Separação longitudinal | 10 min ou 80 NM | 5 NM |
| Capacidade de tráfego | Baixa (4-6 aeronaves/setor) | Alta (10-15 aeronaves/setor) |
| Consciência situacional ATC | Baseada em reports | Contínua, tempo real |
| Detecção de conflito | Manual, por cálculo | Automática, alertas |
| Tempo de resposta a emergência | Dependente de último report | Imediato, posição exata |
A redução da separação de 10 NM para 5 NM duplica a capacidade do espaço aéreo, permitindo mais operações simultâneas sem comprometer a segurança. Para operadores, isso se traduz em menor tempo de espera para decolagem de plataformas e rotas mais diretas.
Otimização de rotas
Com vigilância ADS-B, o controle de tráfego pode oferecer vetores diretos e rotas otimizadas que seriam impossíveis sob separação procedural. Helicópteros que antes seguiam rotas fixas com pontos de report obrigatórios podem voar trajetórias mais diretas entre plataformas, reduzindo tempo de voo e consumo de combustível.
Melhoria em SAR
A capacidade de SAR (Search and Rescue) é dramaticamente melhorada com ADS-B offshore. Em caso de emergência, a última posição conhecida da aeronave é atualizada a cada segundo (versus reports de posição a cada 10-15 minutos sem radar). Isso reduz a área de busca inicial de centenas de milhas quadradas para poucos milhas quadrados, acelerando o resgate em minutos preciosos.
Para uma análise mais aprofundada de como tecnologias emergentes estão transformando a aviação brasileira, consulte o artigo sobre inteligência artificial na aviação.
Requisitos de equipamento para operadores
Para se beneficiar da cobertura ADS-B offshore, as aeronaves devem estar equipadas com transponders ADS-B Out compatíveis.
Equipamentos necessários
| Equipamento | Especificação | Custo estimado | Observação |
|---|---|---|---|
| Transponder Mode S com ADS-B Out | DO-260B (1090ES) | R$ 80.000-150.000 | Obrigatório |
| Fonte de posição GNSS | TSO-C196/C145 | Incluso no GPS/FMS | GPS com RAIM |
| Antena 1090 MHz | Top-mounted | R$ 3.000-5.000 | Diversidade recomendada |
| Instalação e certificação | STC ou SB | R$ 20.000-50.000 | Por tipo de aeronave |
Requisitos regulatórios brasileiros
A ANAC e o DECEA estabelecem requisitos progressivos para equipagem ADS-B:
RBAC 91.227 — Aeronaves operando em espaço aéreo com requisito ADS-B devem ter transponder Mode S com ADS-B Out funcional.
ICA 100-37 — Define as áreas de mandato ADS-B no espaço aéreo brasileiro, incluindo progressivamente as áreas offshore.
Requisitos de performance — O transponder deve atender à DO-260B com NUCp (Navigation Uncertainty Category - position) de 7 ou melhor, equivalente a precisão de posição de 0,1 NM ou melhor.
Cronograma de mandato
| Fase | Data | Requisito |
|---|---|---|
| Fase 1 | 2025 | ADS-B Out obrigatório acima de FL245 em espaço aéreo doméstico |
| Fase 2 | 2026 | ADS-B Out obrigatório em CTRs de aeroportos ATFM |
| Fase 3 | 2027 | ADS-B Out obrigatório em toda a TMA e áreas offshore |
| Fase 4 | 2028 | ADS-B Out obrigatório em todo o espaço aéreo controlado |
Para helicópteros offshore, a Fase 3 (2027) é particularmente relevante, pois tornará o ADS-B Out mandatório nas áreas sobre as bacias petrolíferas.
Integração com SAR e operações de emergência
Uma das aplicações mais valiosas do ADS-B offshore é o suporte a operações de busca e salvamento (SAR) e gerenciamento de emergências em ambiente marítimo.
Cenário de emergência sem ADS-B
Em um cenário de amerissagem de helicóptero offshore sem cobertura ADS-B:
- Último report de posição: há 12 minutos, via rádio VHF
- Posição estimada: raio de 30 NM ao redor do último report (considerando velocidade e vento)
- Área de busca inicial: aproximadamente 2.800 NM quadrados
- Tempo estimado para localização: 1-4 horas (dependendo de condições)
Cenário de emergência com ADS-B
Com cobertura ADS-B offshore:
- Última posição conhecida: há 1 segundo, via ADS-B
- Posição estimada: raio de 0,5 NM ao redor da última posição ADS-B
- Área de busca inicial: aproximadamente 0,8 NM quadrados
- Tempo estimado para localização: 15-30 minutos
Definição: SAR (Search and Rescue) é o serviço internacional de busca e salvamento que coordena operações de resgate de aeronaves em perigo, sobreviventes de acidentes e emergências marítimas. No Brasil, o SAR aeronáutico é coordenado pelo SALVAERO (Serviço de Busca e Salvamento da Aeronáutica) com apoio dos CINDACTAs e da Marinha.
Integração com sistemas de alerta
O ADS-B offshore é integrado com os seguintes sistemas de alerta:
- SALVAERO — O serviço de busca e salvamento recebe alertas automáticos quando uma aeronave com ADS-B desaparece do radar (perda de sinal por mais de 60 segundos em área de cobertura).
- MRCC (Maritime Rescue Coordination Centre) — O centro de coordenação de resgate marítimo da Marinha recebe a última posição conhecida para coordenar embarcações de resgate.
- Operador da plataforma — As plataformas próximas ao último ponto ADS-B são notificadas para acionar embarcações de apoio e helicópteros SAR posicionados em bases offshore.
Comparação internacional: Mar do Norte e Golfo do México
O Brasil não é pioneiro em ADS-B offshore. O Mar do Norte (entre Reino Unido e Noruega) e o Golfo do México (EUA) implementaram sistemas semelhantes anos antes, e suas experiências informam o projeto brasileiro.
Mar do Norte
O Mar do Norte é referência mundial em vigilância offshore. A NATS (UK) e a Avinor (Noruega) operam redes ADS-B offshore com cobertura de 100% sobre as áreas de produção de petróleo desde 2018.
| Aspecto | Mar do Norte | Bacias brasileiras |
|---|---|---|
| Início da cobertura ADS-B | 2014 (experimental), 2018 (operacional) | 2020 (experimental), 2024 (operacional) |
| Plataformas com receptor | 120+ | 30+ (em expansão) |
| Cobertura da área de produção | 100% | 70% (meta 95% até 2027) |
| Integração com ATM | Completa | Em andamento |
| Mandato ADS-B Out | Obrigatório desde 2020 | Obrigatório a partir de 2027 |
| Operações SAR melhoradas | Sim, comprovado | Em implementação |
A experiência do Mar do Norte mostrou que a implementação ADS-B offshore reduziu em 40% o tempo médio de localização em emergências SAR e permitiu aumento de 35% na capacidade de tráfego offshore.
Golfo do México
O Golfo do México, operado pela FAA, apresenta particularidades por envolver voos domésticos dos EUA com regulamentação diferente:
| Aspecto | Golfo do México | Bacias brasileiras |
|---|---|---|
| Volume de operações offshore | 200.000/ano | 85.000/ano |
| Tipo predominante | Helicópteros médios e pesados | Helicópteros médios |
| Cobertura ADS-B | 90% (gaps em águas profundas) | 70% |
| ADS-B via satélite | Em teste (Aireon) | Planejado |
| Ground-based ADS-B | Plataformas + boias | Plataformas |
Lições aprendidas
As experiências internacionais trouxeram lições importantes para o projeto brasileiro:
Redundância é essencial — Pelo menos duas estações devem cobrir cada ponto crítico do espaço aéreo offshore. A perda de uma estação não pode criar lacuna de cobertura.
Manutenção preventiva — Estações em ambiente marinho degradam mais rápido. Ciclos de manutenção devem ser mais curtos que em instalações terrestres.
Integração gradual — A transição de separação procedural para separação baseada em ADS-B deve ser gradual, com período de validação operacional.
Backup por satélite — Para cobertura de gaps entre estações, o ADS-B via satélite (como o sistema Aireon via constelação Iridium NEXT) é complemento valioso.
Perspectivas futuras e vigilância baseada em espaço
O futuro da vigilância offshore não está apenas em estações em plataformas, mas também no espaço. O ADS-B baseado em satélite promete cobertura global, incluindo oceanos e regiões remotas.
ADS-B via satélite (Space-Based ADS-B)
O sistema Aireon, operando via a constelação de satélites Iridium NEXT (66 satélites em órbita baixa), é o primeiro sistema operacional de ADS-B baseado em espaço. Cada satélite Iridium NEXT carrega um payload ADS-B que recebe transmissões 1090ES de aeronaves e retransmite para centros de controle no solo.
| Aspecto | ADS-B terrestre/plataforma | ADS-B via satélite |
|---|---|---|
| Cobertura | Limitada ao alcance da estação | Global, incluindo oceanos |
| Latência | 0,5-2 segundos | 2-8 segundos |
| Custo por estação | Baixo (estação) | Zero (satélite já lançado) |
| Custo de serviço | Manutenção da estação | Assinatura mensal ao provedor |
| Redundância | Depende de múltiplas estações | 66 satélites com cobertura múltipla |
| Disponibilidade | 99,5% (estação individual) | 99,9% (constelação) |
O DECEA está avaliando a incorporação do ADS-B via satélite como complemento à rede de estações em plataformas, especialmente para cobrir gaps na Bacia de Santos, onde a distância entre plataformas pode deixar áreas sem cobertura terrestre.
UTM offshore
A integração de drones no ambiente offshore é uma tendência emergente. Drones são usados para inspeção de plataformas, monitoramento ambiental e até transporte de cargas leves entre instalações. O gerenciamento do espaço aéreo offshore precisará evoluir para integrar tráfego tripulado (helicópteros) e não tripulado (drones) com segurança.
Para pilotos e operadores que desejam entender melhor a estrutura do espaço aéreo brasileiro e como as diferentes classes afetam operações offshore, recomendamos o guia dedicado ao tema.
Vertiportos em plataformas
O conceito de eVTOL (electric Vertical Take-Off and Landing) pode eventualmente impactar operações offshore. Se veículos elétricos de decolagem vertical se tornarem viáveis para distâncias offshore (hoje limitados por autonomia de bateria), o ADS-B offshore será fundamental para integrar esse novo tipo de tráfego ao sistema existente.
Perguntas frequentes
Todo helicóptero offshore precisa de ADS-B?
A partir de 2027, sim. O mandato ADS-B Out será obrigatório para todas as aeronaves operando em áreas offshore designadas. Até lá, o ADS-B Out é recomendado, mas não obrigatório. No entanto, operadores sem ADS-B Out estão sujeitos a separação procedural (maior), resultando em menor eficiência e possíveis atrasos. A maioria dos operadores de helicóptero offshore já equipou suas frotas voluntariamente, antecipando o mandato.
Quanto custa equipar um helicóptero com ADS-B Out?
O custo total de equipagem varia entre R$ 100.000 e R$ 200.000 por aeronave, incluindo transponder Mode S com ADS-B Out (DO-260B), fonte GNSS aprovada, antena, instalação e certificação via STC. Para helicópteros que já possuem transponder Mode S, o upgrade para ADS-B Out pode custar menos, dependendo do modelo do transponder existente.
O ADS-B substitui completamente o radar offshore?
Funcionalmente, sim, para aeronaves equipadas. O ADS-B fornece informações de posição mais precisas e atualizadas que o radar SSR, com cobertura que pode ser estendida indefinidamente pela adição de estações. No entanto, o ADS-B é dependente do transponder da aeronave — aeronaves não equipadas não são detectadas. Por isso, o ADS-B complementa o radar onde este existe, e substitui onde o radar não alcança.
Quem paga pela infraestrutura ADS-B nas plataformas?
O modelo de financiamento é compartilhado. A instalação e manutenção das estações são financiadas por uma combinação de recursos do DECEA (orçamento público), contribuições das operadoras de petróleo (que se beneficiam da maior segurança e eficiência) e taxas de navegação aérea. As operadoras de petróleo fornecem o espaço físico e a conectividade nas plataformas.
O ADS-B funciona se o GPS da aeronave falhar?
Não. O ADS-B é dependente do GNSS para calcular a posição da aeronave. Se o GPS falhar, o ADS-B Out continuará transmitindo, mas sem dados de posição válidos. Nesse caso, o controle de tráfego reverterá para procedimentos de separação procedural para aquela aeronave. Helicópteros offshore devem ter GNSS com RAIM (Receiver Autonomous Integrity Monitoring) para detectar e alertar falhas do GPS.
Como o ADS-B melhora a segurança em caso de pouso forçado no mar?
Em caso de amerissagem, a última posição ADS-B da aeronave é registrada automaticamente com precisão de metros. O sistema de alerta identifica a perda de sinal e dispara notificação automática para SALVAERO e MRCC com a posição exata. Isso reduz a área de busca inicial de milhares de milhas quadradas para menos de 1 milha quadrada, acelerando dramaticamente o resgate.
Existem áreas offshore sem nenhuma cobertura?
Sim, ainda existem gaps, especialmente nas áreas mais distantes da Bacia de Santos (acima de 200 NM da costa) e em regiões com poucas plataformas. O plano do DECEA é atingir 95% de cobertura das áreas de produção até 2027, e a incorporação de ADS-B via satélite (Aireon) eliminará os gaps remanescentes.
O piloto precisa fazer algo diferente quando está sob cobertura ADS-B?
Do ponto de vista do piloto, a operação é transparente. O transponder ADS-B Out transmite automaticamente — não há ação do piloto necessária além de garantir que o transponder está ligado e com o código correto selecionado. A diferença é sentida indiretamente: o ATC pode oferecer vetores diretos, separação reduzida e informações de tráfego mais precisas quando há cobertura ADS-B.
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Fontes: DECEA — Programa ADS-B Nacional; ICAO Doc 9871 — Technical Provisions for Mode S and ADS-B; ANAC — RBAC 91.227; EUROCONTROL — ADS-B Implementation Guide; FAA — ADS-B Offshore Program; Aireon — Space-Based ADS-B; NATS — North Sea ADS-B Implementation Report; Petrobras — Relatório de Segurança Operacional Offshore.
Última atualização: Fevereiro 2026. Conteúdo revisado por piloto comercial ANAC com habilitação IFR.
