O CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea) é o órgão do DECEA responsável pelo gerenciamento estratégico do fluxo de tráfego aéreo em todo o território brasileiro. Quando a demanda de tráfego excede a capacidade de um aeroporto, setor de controle ou rota aérea, o CGNA aplica medidas ATFM (Air Traffic Flow Management) para equilibrar o sistema e manter a segurança operacional. Este guia explica como o ATFM funciona no Brasil, o que são slots CTOT, como os pilotos são afetados e estratégias para minimizar atrasos no planejamento de voo.
Neste artigo
- O que é o CGNA e qual seu papel?
- Como funciona o ATFM no Brasil?
- Tipos de medidas de fluxo
- CTOT: o que é e como funciona o slot?
- CDM: Tomada de Decisão Colaborativa
- Impacto do ATFM no planejamento de voo
- Exemplos reais: ATFM nos aeroportos de São Paulo
- ATFM e aviação geral: o que muda para o piloto privado
- Ferramentas e canais de informação ATFM
- Tendências e evolução do gerenciamento de fluxo
- Perguntas frequentes
O que é o CGNA e qual seu papel?
O CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea) é um órgão do DECEA localizado no Rio de Janeiro, responsável pelo planejamento e gerenciamento do fluxo de tráfego aéreo em todo o espaço aéreo brasileiro. O CGNA monitora o sistema em tempo real e intervém quando a demanda de tráfego ameaça exceder a capacidade disponÃvel, aplicando medidas preventivas para evitar congestionamento, atrasos excessivos e, principalmente, situações que comprometam a segurança.
Definição: CGNA (Centro de Gerenciamento da Navegação Aérea) é o órgão central do DECEA que coordena o ATFM (Air Traffic Flow Management) no Brasil. Localizado no Rio de Janeiro, o CGNA monitora o fluxo de tráfego aéreo 24 horas por dia e aplica medidas de regulação quando a demanda excede a capacidade do sistema, garantindo segurança e eficiência operacional.
O CGNA não substitui os órgãos de controle de tráfego aéreo (TWR, APP, ACC). Enquanto a torre controla o tráfego local do aeródromo, a aproximação gerencia as chegadas e saÃdas na TMA e o centro controla o tráfego em rota, o CGNA atua em um nÃvel superior — gerenciando o fluxo global para que nenhum desses órgãos fique sobrecarregado.
Estrutura organizacional
O CGNA está subordinado ao DECEA e coordena-se com os quatro CINDACTAs (Centros Integrados de Defesa Aérea e Controle de Tráfego Aéreo), que são responsáveis pela execução do controle tático nas respectivas FIRs (Flight Information Regions):
| CINDACTA | FIR | Sede | Aeroportos principais |
|---|---|---|---|
| CINDACTA I | FIR BrasÃlia | BrasÃlia | SBBR, SBGO, SBCF |
| CINDACTA II | FIR Curitiba | Curitiba | SBGR, SBSP, SBKP, SBCT, SBFL |
| CINDACTA III | FIR Recife | Recife | SBRF, SBSV, SBFZ |
| CINDACTA IV | FIR Amazônica | Manaus | SBMN, SBBE |
Funções do CGNA
As funções do CGNA podem ser divididas em três horizontes temporais:
Planejamento estratégico (D-7 a D-1) — Análise de demanda prevista com base nos planos de voo repetitivos (RPL) das companhias aéreas, eventos especiais, condições meteorológicas previstas e disponibilidade de infraestrutura. Definição de cenários e pré-posicionamento de medidas.
Planejamento pré-tático (D-1 a D-0) — Refinamento das medidas com base nos planos de voo confirmados, TAFs (previsões meteorológicas) e informações operacionais atualizadas. Publicação de ATFM Messages (AFM) com medidas previstas para o dia seguinte.
Gerenciamento tático (D-0, em tempo real) — Monitoramento contÃnuo do fluxo, aplicação, ajuste e cancelamento de medidas conforme a situação operacional evolui ao longo do dia.
Como funciona o ATFM no Brasil?
O ATFM (Air Traffic Flow Management) é o conjunto de processos e medidas que o CGNA utiliza para equilibrar a demanda de tráfego com a capacidade disponÃvel. O princÃpio fundamental do ATFM é: quando a demanda excede a capacidade, é mais seguro e eficiente atrasar aeronaves no solo do que permitir que se acumulem no ar.
Definição: ATFM (Air Traffic Flow Management) é o serviço que regula o fluxo de tráfego aéreo para garantir que a demanda não exceda a capacidade declarada de aeroportos, setores de controle e rotas aéreas. Traduz-se em medidas como slots de decolagem, programas de atraso e restrições de rota que mantêm o sistema operando dentro dos limites seguros.
O ciclo ATFM
O ciclo ATFM é um processo contÃnuo que ocorre em quatro etapas:
Monitoramento — O CGNA monitora continuamente o volume de tráfego previsto e real em cada aeroporto, setor e rota, comparando com a capacidade declarada.
Detecção de desequilÃbrio — Quando a previsão indica que a demanda vai exceder a capacidade em determinado ponto/perÃodo, o CGNA identifica o gargalo.
Aplicação de medida — O CGNA seleciona e aplica a medida ATFM mais adequada para o gargalo identificado, buscando minimizar o impacto total no sistema.
Revisão — A medida é monitorada e ajustada conforme a situação evolui. Se a demanda diminui (por exemplo, meteorologia melhora), a medida pode ser relaxada ou cancelada.
Capacidade declarada
Cada aeroporto e setor de controle possui uma capacidade declarada, expressa em operações por hora (movimentos/hora). Essa capacidade depende de diversos fatores:
| Fator | Impacto na capacidade | Exemplo |
|---|---|---|
| Configuração de pista | Direto | SBGR com ambas pistas: 56 mov/h; pista única: 32 mov/h |
| Condição meteorológica | Significativo | VMC: capacidade plena; IMC: redução de 20-40% |
| Disponibilidade de radar | Moderado | Com radar: separação 3 NM; sem radar: separação 10 NM |
| Efetivo ATC | Direto | Setores abertos dependem de controladores disponÃveis |
| NOTAMs operacionais | Variável | Obra na pista, auxÃlio inoperante |
Quando a demanda prevista para um perÃodo excede a capacidade declarada, o CGNA é obrigado a intervir. A alternativa — permitir que aeronaves se acumulem em esperas no ar — é mais cara (combustÃvel), arriscada (fadiga do piloto, combustÃvel mÃnimo) e ineficiente.
Tipos de medidas de fluxo
O CGNA dispõe de diversas ferramentas para regular o fluxo de tráfego. Cada tipo de medida é adequado para uma situação especÃfica.
GDP (Ground Delay Program)
O GDP é a medida mais comum. Quando um aeroporto de destino tem capacidade reduzida (por meteorologia, obra ou outro motivo), o CGNA atribui slots de chegada para cada voo planejado, calculando o CTOT (Calculated Takeoff Time) necessário para que a aeronave chegue no slot designado.
O GDP afeta apenas voos com destino ao aeroporto afetado. Aeronaves são mantidas no solo na origem até que seu slot de chegada esteja disponÃvel. Isso é preferÃvel a mantê-las em espera no ar, onde consomem combustÃvel adicional.
Exemplo: se SBSP entra em GDP por meteorologia com taxa de aceitação reduzida de 30 para 20 chegadas/hora, cada voo com destino a Congonhas recebe um slot com intervalo de 3 minutos (60/20 = 3 min) em vez de 2 minutos (60/30 = 2 min). Voos que não cabem na janela original recebem CTOT com atraso proporcional.
AFP (Airspace Flow Program)
O AFP regula o fluxo em um setor de controle ou rota especÃfica, em vez de um aeroporto. É usado quando um setor do ACC está com capacidade reduzida (por exemplo, devido a atividade de cumulonimbus que bloqueia rotas) e precisa limitar o número de aeronaves que entram no setor por hora.
MIT/MINIT (Miles/Minutes in Trail)
MIT (Miles in Trail) e MINIT (Minutes in Trail) são medidas de espaçamento que exigem uma distância ou tempo mÃnimo entre aeronaves consecutivas em uma mesma rota ou entrando em um mesmo setor. São frequentemente aplicadas pelo ACC em coordenação com o CGNA.
| Medida | Tipo | Descrição | Uso tÃpico |
|---|---|---|---|
| MIT 10 | Distância | 10 NM entre aeronaves consecutivas | Entrada em setor congestionado |
| MIT 20 | Distância | 20 NM entre aeronaves consecutivas | Desvio de CB em rota |
| MINIT 5 | Tempo | 5 minutos entre aeronaves consecutivas | Aproximação congestionada |
| MINIT 10 | Tempo | 10 minutos entre aeronaves consecutivas | Capacidade severamente reduzida |
GS (Ground Stop)
O Ground Stop é a medida mais restritiva: nenhum voo com destino ao aeroporto afetado pode decolar até que o GS seja cancelado. É usado em situações extremas como fechamento do aeroporto por meteorologia severa, acidente na pista ou crise operacional.
Reroute
O CGNA pode solicitar que aeronaves utilizem rotas alternativas para desviar de setores congestionados ou áreas de meteorologia adversa. O reroute pode ser mandatório (o piloto deve aceitar a rota alternativa) ou sugestivo (o piloto pode aceitar ou aguardar).
CTOT: o que é e como funciona o slot?
CTOT (Calculated Takeoff Time) é o horário calculado pelo CGNA no qual a aeronave deve decolar para chegar ao destino no slot de chegada atribuÃdo. O CTOT é o resultado prático do ATFM para o piloto — é o horário que ele precisa cumprir.
Como o CTOT é calculado
O CGNA calcula o CTOT usando a seguinte lógica:
- Determina o slot de chegada disponÃvel no destino (CLDT — Calculated Landing Time)
- Subtrai o tempo de voo estimado (do plano de voo)
- Adiciona margem para taxi e procedimentos de saÃda
- O resultado é o CTOT — horário de decolagem que garante chegada no slot
Exemplo prático:
- Slot de chegada em SBSP: 14:30 UTC
- Tempo de voo SBBR-SBSP: 1h30min
- Taxi + SID: 15 min
- CTOT = 14:30 - 1:30 - 0:15 = 12:45 UTC
Tolerância do CTOT
O CTOT possui uma janela de tolerância:
| Tolerância | PerÃodo | Observação |
|---|---|---|
| -5 minutos | Antes do CTOT | Pode decolar até 5 min antes |
| +10 minutos | Após o CTOT | Pode decolar até 10 min depois |
| Total | 15 minutos | Janela total de conformidade |
Se a aeronave não decolar dentro da janela de tolerância, o slot é perdido e um novo CTOT precisa ser solicitado. Isso pode resultar em atraso adicional significativo, pois o próximo slot disponÃvel pode estar distante.
Definição: CTOT (Calculated Takeoff Time) é o horário calculado pelo CGNA no qual a aeronave deve decolar para cumprir a medida ATFM vigente. O CTOT garante que a aeronave chegue ao destino no slot de chegada atribuÃdo. A janela de conformidade é de -5/+10 minutos em relação ao CTOT publicado.
Como o piloto recebe o CTOT
O CTOT é comunicado ao piloto por diferentes canais:
- ATFM Message (AFM) — Publicada no sistema do CGNA, acessÃvel via AISWEB e sistemas das companhias
- Clearance delivery (DEL) — Ao solicitar autorização de tráfego, o piloto é informado do CTOT
- ATIS — Em aeroportos com medidas ATFM vigentes, o ATIS informa a existência de restrições
- Sistema da companhia — Companhias aéreas integram os CTOTs aos seus sistemas de despacho
Para aviação geral, o CTOT pode ser obtido consultando o CGNA por telefone (se disponÃvel) ou via a informação do DEL/TWR no momento da solicitação de autorização de tráfego.
CDM: Tomada de Decisão Colaborativa
CDM (Collaborative Decision Making) é a filosofia de gestão na qual o CGNA não toma decisões unilateralmente, mas em colaboração com os operadores afetados. O CDM reconhece que os operadores possuem informações valiosas sobre prioridades comerciais, disponibilidade de tripulação e conexões de passageiros que o CGNA não tem.
PrincÃpios do CDM
Transparência de informação — O CGNA compartilha dados de demanda, capacidade e medidas em tempo real com os operadores.
Slot swapping — Operadores podem trocar slots entre si. Se um voo da companhia A não vai utilizar seu slot (por atraso operacional), a companhia B pode absorvê-lo, desde que ambas concordem.
Priorização pelo operador — Quando um operador tem múltiplos voos afetados, pode indicar ao CGNA qual é prioritário (por exemplo, o que tem mais conexões).
Cancelamento proativo — Se um operador sabe que um voo será cancelado, informar o CGNA imediatamente libera o slot para outro operador, melhorando a eficiência global.
A-CDM nos aeroportos
O conceito de A-CDM (Airport Collaborative Decision Making) expande o CDM para incluir todos os stakeholders do aeroporto: controle de tráfego, operador do aeroporto, ground handling, companhias aéreas e o CGNA. O A-CDM cria uma "imagem operacional comum" onde todos veem a mesma informação e podem tomar decisões coordenadas.
Aeroportos brasileiros em processo de implementação de A-CDM:
| Aeroporto | Indicativo | Status A-CDM | Fase |
|---|---|---|---|
| Guarulhos | SBGR | Operacional | Fase 3 (consolidação) |
| Congonhas | SBSP | Em implantação | Fase 2 (integração) |
| Galeão | SBGL | Em implantação | Fase 2 (integração) |
| BrasÃlia | SBBR | Planejado | Fase 1 (design) |
| Confins | SBCF | Planejado | Fase 1 (design) |
O A-CDM em SBGR já demonstrou redução média de 3,5 minutos no taxi-out time e aumento de 8% na previsibilidade dos horários de decolagem.
Impacto do ATFM no planejamento de voo
O ATFM afeta diretamente o planejamento de voo de todos os operadores, desde companhias aéreas até pilotos privados. Compreender como o sistema funciona permite melhor planejamento e redução de frustrações com atrasos.
Considerações para o plano de voo
Ao elaborar o plano de voo, o piloto deve considerar:
EOBT realista — O Estimated Off-Block Time deve refletir o horário real previsto de saÃda do estacionamento. Um EOBT irreal pode resultar em CTOT baseado em premissas incorretas, levando a perda do slot.
Buffer para CTOT — Em perÃodos de alta demanda (horários de pico em SBGR/SBSP), é prudente considerar um atraso potencial de 15-45 minutos para CTOT no planejamento do dia.
CombustÃvel adicional — O ATFM pode resultar em esperas no solo que consomem combustÃvel de APU (se aplicável) e alteram o peso de decolagem. Considere combustÃvel extra para contingências ATFM.
Rota alternativa — Se a rota planejada passa por um setor frequentemente congestionado (como o setor de São Paulo), considere rotas alternativas que possam ser usadas em caso de AFP ou MIT.
Para uma visão completa sobre como construir um briefing pré-voo que incorpore informações ATFM, consulte o guia de briefing pré-voo em 5 passos.
Horários de pico e padrões de ATFM
O sistema aéreo brasileiro apresenta padrões previsÃveis de demanda que ajudam no planejamento:
| PerÃodo | Demanda | Probabilidade ATFM | Aeroportos afetados |
|---|---|---|---|
| 06:00-08:00 UTC | Pico matutino | Alta (60%) | SBGR, SBSP, SBCF |
| 08:00-12:00 UTC | Moderada a alta | Média (35%) | SBGR, SBBR |
| 12:00-16:00 UTC | Alta (pico tarde) | Alta (55%) | SBGR, SBSP, SBGL |
| 16:00-20:00 UTC | Pico noturno | Muito alta (70%) | SBGR, SBSP, SBGL |
| 20:00-23:00 UTC | Decrescente | Média (30%) | SBGR |
| 23:00-06:00 UTC | Baixa | Baixa (10%) | Raramente |
Os horários são em UTC. Horário local de BrasÃlia (BRT) é UTC-3. O perÃodo mais crÃtico para ATFM em São Paulo é entre 13:00 e 17:00 hora local (16:00-20:00 UTC), quando os fluxos doméstico e internacional se sobrepõem.
Consulta prévia ao CGNA
Antes do voo, pilotos podem consultar informações ATFM através de:
- Portal AISWEB — Seção de ATFM com medidas vigentes e previstas
- NOTAM — NOTAMs de categoria ATFM indicam medidas em vigor. Para aprender a interpretar NOTAMs, consulte o guia de leitura de NOTAMs
- Briefing do operador — Companhias aéreas distribuem briefings ATFM atualizados para suas tripulações
- Frequência do CGNA — DisponÃvel para consultas por rádio em casos especÃficos
Exemplos reais: ATFM nos aeroportos de São Paulo
A TMA São Paulo concentra cerca de 30% das operações IFR do Brasil e é, consequentemente, onde o ATFM é mais frequentemente aplicado. Entender os cenários comuns ajuda o piloto a se preparar.
Cenário 1: GDP por meteorologia em Congonhas
Situação: METAR de SBSP reporta teto a 300 ft e visibilidade 1.500 m (abaixo dos mÃnimos do ILS CAT I). TAF prevê melhora à s 18:00 UTC.
Ação do CGNA: GDP em SBSP com taxa de aceitação reduzida de 30 para 12 chegadas/hora. Todos os voos com destino a SBSP recebem CTOT com atrasos de 20 a 90 minutos, dependendo do horário planejado.
Impacto no piloto: Voo SBBR-SBSP com EOBT 15:00 UTC recebe CTOT de 16:15 UTC (atraso de 1h15min). O piloto deve replanejar combustÃvel considerando o peso adicional ao decolar mais tarde (maior peso = maior consumo) e informar passageiros sobre o atraso.
Resolução: Às 17:30 UTC, a meteorologia em SBSP melhora acima dos mÃnimos. O CGNA relaxa o GDP progressivamente, reduzindo os atrasos dos CTOTs seguintes.
Cenário 2: AFP por CB no setor de São Paulo
Situação: Formação de CB (cumulonimbus) extensiva ao longo da aerovia UW2, principal rota Norte-Sul que cruza a TMA São Paulo.
Ação do CGNA: AFP no setor APP-SP com MIT 20 (20 NM entre aeronaves) para tráfego na UW2. Adicionalmente, reroute sugestivo via UW5 para aeronaves que aceitem desvio.
Impacto no piloto: Voos na UW2 recebem atraso de 10-30 minutos. Pilotos que aceitam o reroute pela UW5 voam aproximadamente 40 NM a mais, mas evitam o atraso do MIT.
Cenário 3: GS por acidente em Guarulhos
Situação: Aeronave excede lateral de pista (runway excursion) em SBGR pista 09R/27L. Pista interditada para inspeção e remoção da aeronave.
Ação do CGNA: GS em SBGR por tempo indeterminado. Todas as decolagens com destino a SBGR são suspensas. Aeronaves já em voo são autorizadas a pousar na pista 09L/27R (se disponÃvel) ou a diversão para alternativas (SBKP, SBSP para aeronaves compatÃveis).
Impacto no piloto: Nenhum voo com destino a SBGR pode decolar. Pilotos já no solo com autorização de tráfego emitida devem retornar ao estacionamento. O combustÃvel planejado para a operação pode ser insuficiente quando o GS for cancelado, exigindo reabastecimento.
Para compreender as classes de espaço aéreo envolvidas nestes cenários e como as regras mudam entre espaço controlado e não controlado, consulte o guia sobre espaço aéreo brasileiro.
ATFM e aviação geral: o que muda para o piloto privado
O ATFM afeta predominantemente o tráfego IFR comercial, mas pilotos de aviação geral também são impactados, especialmente em aeroportos compartilhados com tráfego comercial.
Como o ATFM afeta o piloto privado
| Situação | Impacto para aviação geral | Mitigação |
|---|---|---|
| GDP no destino | CTOT pode ser atribuÃdo | Planejar alternativa fora do GDP |
| GS no destino | Decolagem suspensa | Aguardar ou escolher outro destino |
| AFP em rota | MIT pode aumentar tempo de voo | Aceitar reroute se disponÃvel |
| Pista congestionada | Sequência de decolagem atrasada | Evitar horários de pico |
Aeroportos compartilhados
Em aeroportos como SBSP (Congonhas), SBRJ (Santos Dumont) e SBPA (Porto Alegre), o tráfego de aviação geral compartilha pista e sequência com tráfego comercial. Quando medidas ATFM estão em vigor, a aviação geral recebe tratamento igual — seus voos entram na mesma fila de slots que os voos comerciais.
Estratégias para minimizar impacto
Evite horários de pico — Planeje decolagens fora dos perÃodos de alta demanda. Fins de semana geralmente têm menos tráfego comercial.
Use aeroportos alternativos — Se seu destino está sob GDP, considere pousar em um aeroporto próximo não afetado. Exemplo: se SBSP está em GDP, considere SDCO (Campo de Marte) ou SBJD (JundiaÃ) como alternativa.
Monitore informações ATFM — Antes de sair para o aeroporto, verifique se há medidas ATFM previstas para seu destino e horário.
Seja flexÃvel — Diferentemente das companhias aéreas, pilotos privados têm flexibilidade para ajustar horários e destinos. Use isso a seu favor.
Comunique-se proativamente — Se sabe que vai atrasar, informe a TWR/DEL antecipadamente. Isso pode ajudar o CGNA a realocar seu slot para outro operador e atribuir-lhe um novo slot mais adequado.
Ferramentas e canais de informação ATFM
O CGNA disponibiliza diversas ferramentas para que operadores e pilotos acompanhem a situação do fluxo de tráfego em tempo real.
Portal AISWEB
O portal AISWEB (aisweb.decea.mil.br) possui uma seção dedicada ao ATFM onde é possÃvel consultar:
- Medidas ATFM vigentes (GDP, AFP, GS, MIT)
- Previsão de medidas para as próximas 24 horas
- Capacidade declarada dos aeroportos e reduções em vigor
- EstatÃsticas históricas de atrasos ATFM
ATFM Messages (AFM)
As AFMs são mensagens publicadas pelo CGNA com antecedência informando medidas previstas. São distribuÃdas via AISWEB, sistemas das companhias aéreas e NOTAM. O formato tÃpico inclui:
- Aeroporto ou setor afetado
- Tipo de medida (GDP, AFP, GS)
- PerÃodo de validade
- Taxa de aceitação ou espaçamento
- Motivo (meteorologia, obras, efetivo ATC)
NOTAM ATFM
NOTAMs com série ATFM são publicadas para informar medidas de fluxo com antecedência. Diferem dos NOTAMs aeronáuticos tradicionais por seu caráter operacional e validade curta (geralmente horas).
Sistemas das companhias aéreas
Companhias aéreas recebem informações ATFM diretamente em seus sistemas de despacho (OCC — Operations Control Center). Pilotos de linha aérea consultam o despachante para obter o CTOT e condições ATFM antes do pushback.
Tendências e evolução do gerenciamento de fluxo
O gerenciamento de fluxo de tráfego aéreo no Brasil está em constante evolução, alinhado com tendências globais da ICAO e experiências de sistemas maduros como o EUROCONTROL na Europa e a FAA nos Estados Unidos.
TBO (Trajectory Based Operations)
O futuro do ATFM é o TBO, onde cada aeronave negocia uma trajetória 4D (três dimensões espaciais + tempo) com o sistema ATM. Em vez de receber slots e vetorização, a aeronave se compromete a estar em determinado ponto no espaço em determinado momento, e o sistema garante separação baseada nessas trajetórias acordadas.
O TBO reduz drasticamente a necessidade de medidas ATFM reativas, pois o planejamento é feito de forma contÃnua e colaborativa entre todos os operadores e o sistema ATM.
SWIM (System Wide Information Management)
O SWIM é o conceito de compartilhamento de informação aeronáutica em tempo real entre todos os stakeholders do sistema ATM. Em vez de sistemas isolados que trocam dados por mensagens pontuais (AFTN/AMHS), o SWIM cria um "lago de dados" acessÃvel a todos os participantes.
Para o ATFM, o SWIM significa que o CGNA terá acesso em tempo real a dados de:
- Posição de todas as aeronaves (via ADS-B e radar)
- Condições meteorológicas atualizadas minuto a minuto
- Status operacional de cada aeroporto
- Intenções dos operadores (planos de voo em tempo real)
Free Route Airspace (FRA)
O FRA permite que aeronaves voem rotas diretas entre qualquer ponto de entrada e saÃda de um setor, em vez de seguir aerovias fixas. Isso reduz a distância voada, o consumo de combustÃvel e a concentração de tráfego sobre pontos fixos, facilitando o trabalho do CGNA.
O DECEA está estudando a implementação progressiva de FRA em setores de alta altitude (acima de FL245) do espaço aéreo brasileiro, começando por setores com menor densidade de tráfego.
Perguntas frequentes
O que acontece se eu perder meu CTOT?
Se a aeronave não decolar dentro da janela de tolerância do CTOT (-5/+10 minutos), o slot é perdido. O piloto ou operador deve solicitar um novo CTOT ao CGNA, que será calculado com base na disponibilidade atual. Dependendo da demanda, o novo CTOT pode ter atraso adicional significativo. Perder o CTOT é uma das causas mais comuns de atrasos em cascata para operadores.
Pilotos VFR são afetados pelo ATFM?
Voos VFR são menos afetados porque não operam nos mesmos fluxos que o tráfego IFR. No entanto, em aeroportos controlados sob medidas ATFM, voos VFR podem experimentar atrasos na sequência de decolagem ou restrições de horário. Ground Stops afetam todos os tipos de tráfego, incluindo VFR.
Posso negociar meu CTOT?
Companhias aéreas podem negociar via CDM, propondo trocas de slots ou indicando prioridades entre seus próprios voos. Pilotos privados têm menos poder de negociação, mas podem solicitar um novo CTOT se as condições operacionais permitirem (por exemplo, se outro slot ficou disponÃvel por cancelamento).
Como saber se meu destino terá ATFM?
Consulte o portal AISWEB na seção ATFM, onde as medidas vigentes e previstas são publicadas. Antes do voo, verifique os NOTAMs de série ATFM para seu destino. Em dias de meteorologia adversa sobre grandes aeroportos (SBGR, SBSP, SBGL), a probabilidade de medidas ATFM é alta.
O ATFM se aplica a voos internacionais?
Sim. Voos internacionais com destino a aeroportos brasileiros recebem CTOTs como qualquer outro voo. A coordenação é feita entre o CGNA e os centros ATFM dos paÃses vizinhos (EANA na Argentina, por exemplo) e com o Central Flow Management Unit do EUROCONTROL para voos transatlânticos.
Quanto atraso médio o ATFM causa?
O atraso médio ATFM varia por aeroporto e época. Em SBGR, o atraso médio ATFM é de aproximadamente 12 minutos por operação afetada. Em SBSP, pode chegar a 18 minutos em dias de meteorologia adversa. Nem todos os voos são afetados — em dias normais, cerca de 20-30% dos voos recebem CTOT em aeroportos como SBGR e SBSP.
O que é "slot zero"?
Slot zero (ou "sem restrição ATFM") significa que o voo não está sujeito a nenhuma medida ATFM e pode decolar conforme o EOBT planejado. Em aeroportos menos movimentados e fora de horários de pico, a maioria dos voos opera com slot zero.
Posso decolar antes do CTOT?
Sim, dentro da janela de tolerância. O CTOT permite decolagem até 5 minutos antes do horário calculado. Decolar mais de 5 minutos antes viola a medida ATFM e pode causar conflito de sequenciamento no destino. A TWR deve autorizar a decolagem apenas dentro da janela de conformidade.
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Fontes: DECEA — CGNA (cgna.decea.mil.br); ICA 100-22 — Regras do Ar e Serviços de Tráfego Aéreo; ICAO Doc 4444 — PANS-ATM; ICAO Doc 9971 — Manual on ATFM; EUROCONTROL — CDM Implementation Guide; ANAC — RBAC 91/121/135.
Última atualização: Fevereiro 2026. Conteúdo revisado por piloto comercial ANAC com habilitação IFR.
