A escolha do aeródromo de alternativa é uma das decisões mais importantes do planejamento de voo IFR. Quando o piloto não pode pousar no destino planejado por condições meteorológicas abaixo dos mÃnimos, falha de equipamento ou qualquer outra razão, a alternativa é o aeródromo para onde ele desviará. No Brasil, o RBAC 91.169 e a ICA 100-11 definem quando a alternativa é obrigatória e quais critérios ela deve atender. Um planejamento inadequado da alternativa pode resultar em situação de emergência por combustÃvel insuficiente, que é uma das ocorrências mais graves na aviação. Este guia detalha todos os critérios, regras e exemplos práticos para que o piloto escolha e planeje sua alternativa corretamente.
Neste artigo
- O que é o aeródromo de alternativa
- Quando a alternativa de destino é obrigatória
- A regra 1-2-3 explicada
- MÃnimos de alternativa versus mÃnimos de destino
- Critérios para escolher uma boa alternativa
- CombustÃvel para alternativa: como calcular
- Alternativa de decolagem e alternativa em rota
- Exemplos práticos em cenários brasileiros
- Quando dispensar a alternativa
- Perguntas frequentes
O que é o aeródromo de alternativa
O aeródromo de alternativa de destino é o aeródromo para onde a aeronave pode prosseguir caso o pouso no aeródromo de destino não seja possÃvel ou aconselhável. Ele é declarado no plano de voo (Campo 16) e o combustÃvel para alcançá-lo deve ser calculado e embarcado.
Definição: O aeródromo de alternativa de destino (destination alternate aerodrome) é o aeródromo listado no plano de voo para o qual uma aeronave pode prosseguir quando o pouso no aeródromo de destino pretendido se torna desaconselhável. Conforme ICAO Annex 2 e RBAC 91.169, a alternativa deve possuir condições meteorológicas adequadas e infraestrutura de aproximação compatÃvel com a operação.
Existem três tipos de alternativa no planejamento de voo:
| Tipo | Descrição | Quando usar |
|---|---|---|
| Alternativa de destino | Aeródromo substituto ao destino principal | Obrigatória em condições IFR especÃficas |
| Alternativa de decolagem | Aeródromo próximo ao de partida | Quando destino está abaixo dos mÃnimos de decolagem |
| Alternativa em rota (RALT) | Aeródromo ao longo da rota | Para voos longos ou sobre áreas remotas |
Para a maioria dos voos domésticos IFR no Brasil, a alternativa de destino é a mais relevante e frequentemente obrigatória.
Quando a alternativa de destino é obrigatória
O RBAC 91.169 estabelece que o piloto em comando de um voo IFR deve listar pelo menos um aeródromo de alternativa de destino no plano de voo, exceto quando:
- A previsão meteorológica (TAF ou METAR, se TAF não disponÃvel) indica que, no perÃodo de 1 hora antes até 1 hora depois do horário estimado de chegada (ETA), as condições no aeródromo de destino serão:
- Teto igual ou superior a 2.000 pés acima da elevação do aeródromo
- Visibilidade igual ou superior a 5.000 metros (3 milhas estatutárias)
Se essas condições forem atendidas pela previsão, a alternativa pode ser dispensada. Caso contrário, é obrigatória.
Resumo visual da obrigatoriedade
| Condição no destino (TAF/METAR) | Alternativa obrigatória? |
|---|---|
| Teto >= 2.000 ft E visibilidade >= 5.000 m | Não (pode dispensar) |
| Teto < 2.000 ft OU visibilidade < 5.000 m | Sim |
| TAF não disponÃvel para o destino | Sim (por prudência) |
| Destino sem procedimento de aproximação | Sim |
| METAR indica condições abaixo dos mÃnimos | Sim |
Interpretando o TAF para a decisão
A análise do TAF do aeródromo de destino é o passo fundamental. O piloto deve verificar os grupos BECMG (becoming) e TEMPO (temporário) no perÃodo de ETA-1h a ETA+1h. Se qualquer grupo nesse perÃodo indicar teto abaixo de 2.000 ft ou visibilidade abaixo de 5.000 m, a alternativa é obrigatória.
Exemplo de TAF para SBSP:
TAF SBSP 231000Z 2312/2412 18008KT 9999 SCT025
TEMPO 2318/2322 4000 BR BKN010
BECMG 2400/2402 09005KT 9999 FEW030
Se o ETA em SBSP é 20:00 UTC (janela 19:00-21:00), o grupo TEMPO 2318/2322 indica visibilidade 4.000 m e teto 1.000 ft (BKN010). A visibilidade está abaixo de 5.000 m e o teto está abaixo de 2.000 ft. Alternativa obrigatória.
A regra 1-2-3 explicada
A regra 1-2-3 é um mnemônico amplamente utilizado para lembrar os critérios de dispensa da alternativa:
- 1 hora: janela de 1 hora antes e 1 hora depois do ETA
- 2 mil pés: teto mÃnimo de 2.000 pés acima do aeródromo
- 3 milhas: visibilidade mÃnima de 3 milhas estatutárias (5.000 metros)
Definição: A regra 1-2-3 (one-two-three rule) é o critério regulamentar que define as condições meteorológicas mÃnimas no destino para que o piloto possa dispensar a alternativa de destino em um voo IFR. Se teto e visibilidade estão acima de 2.000 ft e 3 SM (5.000 m) no perÃodo de 1 hora antes a 1 hora depois do ETA, a alternativa pode ser dispensada.
Armadilhas da regra 1-2-3
A regra 1-2-3 determina quando a alternativa pode ser dispensada, não quando o pouso no destino é garantido. Mesmo que o piloto dispense a alternativa com base na previsão, as condições podem deteriorar-se durante o voo. Por isso, muitos pilotos experientes sempre planejam uma alternativa, mesmo quando a regra 1-2-3 permitiria dispensá-la. O custo é apenas o combustÃvel adicional para alcançá-la.
PerÃodos TEMPO e PROB
Os grupos TEMPO indicam flutuações temporárias. Se um TEMPO dentro da janela 1-2-3 indica condições abaixo dos mÃnimos, a alternativa é obrigatória, mesmo que a condição predominante esteja acima.
Grupos PROB30 e PROB40 no TAF indicam probabilidade de 30% ou 40% de ocorrência. A ICA 100-11 e a regulamentação ICAO consideram PROB30 como informativo (não exige alternativa), mas PROB40 deve ser considerado como TEMPO para efeito de decisão. Na dúvida, a prudência recomenda tratar ambos como condição possÃvel.
MÃnimos de alternativa versus mÃnimos de destino
Uma distinção fundamental que muitos pilotos confundem: os mÃnimos meteorológicos exigidos para que um aeródromo seja válido como alternativa são mais altos que os mÃnimos para pouso no destino.
Tabela de mÃnimos de alternativa (RBAC 91.169)
| Tipo de procedimento no aeródromo | MÃnimo de alternativa (teto) | MÃnimo de alternativa (visibilidade) |
|---|---|---|
| ILS (precisão CAT I) | DA/H + 200 ft (mÃn. 600 ft) | Vis + 1.600 m (mÃn. 3.200 m) |
| NDB ou VOR (não-precisão) | MDA/H + 200 ft (mÃn. 800 ft) | Vis + 1.600 m (mÃn. 4.800 m) |
| Apenas procedimentos circling | MDA/H + 200 ft (mÃn. 800 ft) | Vis + 1.600 m (mÃn. 4.800 m) |
| Dois ou mais procedimentos utilizáveis | O mais favorável entre eles | O mais favorável entre eles |
Exemplo prático
Considere SBGL (Galeão) como alternativa. O ILS da pista 10 tem DA de 238 ft (200 ft acima da elevação).
- MÃnimo de alternativa para ILS: DA + 200 ft = 438 ft, arredondado para 600 ft (mÃnimo)
- Visibilidade de alternativa: vis ILS (800 m) + 1.600 m = 2.400 m, arredondado para 3.200 m (mÃnimo)
Portanto, para que SBGL seja válido como alternativa, o TAF deve indicar teto >= 600 ft e visibilidade >= 3.200 m no perÃodo previsto de chegada.
MÃnimos de destino (para pouso)
Os mÃnimos de destino são os publicados no procedimento de aproximação (DA para ILS, MDA para NPA). O piloto pode iniciar a aproximação com condições abaixo dos mÃnimos de alternativa, mas só pode descer abaixo da DA/MDA se tiver as referências visuais necessárias. Se não tiver, executa a arremetida e prossegue para a alternativa.
Critérios para escolher uma boa alternativa
Escolher a alternativa não é apenas encontrar um aeródromo com pista e procedimento IFR. Vários fatores devem ser considerados:
Critérios obrigatórios
| Critério | Descrição |
|---|---|
| Procedimento de aproximação | Deve ter pelo menos um procedimento IAP publicado |
| Condições meteorológicas | TAF/METAR acima dos mÃnimos de alternativa |
| Pista compatÃvel | Comprimento e resistência adequados para a aeronave |
| CombustÃvel alcançável | CombustÃvel a bordo deve ser suficiente para alcançá-la |
Critérios desejáveis
| Critério | Descrição |
|---|---|
| Proximidade do destino | Menor distância = menor combustÃvel adicional |
| Meteorologia favorável | Condições bem acima dos mÃnimos |
| Infraestrutura | CombustÃvel, manutenção, transporte terrestre |
| Múltiplos procedimentos | ILS + NPA = maior probabilidade de pouso |
| Diferentes condições meteorológicas | Localização geográfica que evite o mesmo sistema meteorológico |
Infraestrutura do aeródromo
Além dos requisitos regulamentares, a infraestrutura disponÃvel no aeródromo de alternativa pode ser decisiva. Se o piloto precisar efetivamente pousar na alternativa, ele estará em um aeródromo que não era o destino planejado. Considere:
- CombustÃvel disponÃvel: A alternativa tem posto de abastecimento? Se não, como retornar ou prosseguir?
- Manutenção: Se houve problema mecânico que motivou o desvio, há oficina no aeródromo?
- Transporte terrestre: Os passageiros conseguem chegar ao destino final por terra?
- Operação noturna: Se o pouso será noturno, o aeródromo tem iluminação de pista?
- Serviço ATS: A alternativa tem torre de controle ou apenas AFIS?
Para voos de táxi aéreo ou transporte de passageiros, esses fatores operacionais são tão importantes quanto os mÃnimos meteorológicos. Para a aviação geral, o combustÃvel disponÃvel é frequentemente o fator mais restritivo.
A armadilha da proximidade
Escolher a alternativa mais próxima nem sempre é a melhor decisão. Se o destino e a alternativa estão sob o mesmo sistema meteorológico (ex: frente fria cobrindo toda a região), ambos podem estar abaixo dos mÃnimos simultaneamente. É preferÃvel uma alternativa mais distante, mas em uma região com condições meteorológicas independentes.
Exemplo clássico no Brasil: se SBSP (Congonhas) é o destino e uma frente fria está sobre São Paulo, escolher SBKP (Campinas) como alternativa pode não ser ideal, pois está a apenas 80 km e frequentemente sob o mesmo sistema. SBGR (Guarulhos) é ainda mais próximo e sob o mesmo sistema. Nesse caso, uma alternativa como SBRJ (Santos Dumont) ou até SBGL (Galeão) no Rio de Janeiro, fora do sistema frontal, pode ser mais segura.
CombustÃvel para alternativa: como calcular
O planejamento de combustÃvel com alternativa segue uma estrutura regulamentar precisa. Para voos IFR no Brasil, o RBAC 91.167 exige:
Estrutura de combustÃvel IFR
| Componente | Descrição | Obrigatório |
|---|---|---|
| Taxi | CombustÃvel para partida e taxi | Sim |
| Trip fuel | CombustÃvel do destino ao destino (rota planejada) | Sim |
| Alternativa | CombustÃvel do destino à alternativa | Se alternativa obrigatória |
| Reserva final | 45 minutos em velocidade normal de cruzeiro | Sim |
| Contingência | 5% do trip fuel (ou 5 minutos) | Recomendado |
Fórmula completa
CombustÃvel mÃnimo = Taxi + Trip + Alternativa + Reserva 45 min + Contingência
Exemplo de cálculo
Voo de SBSP a SBRJ com alternativa SBGL:
| Trecho | Tempo | Consumo/hora | CombustÃvel |
|---|---|---|---|
| Taxi SBSP | 10 min | 8 gal/h | 1.3 gal |
| SBSP a SBRJ | 55 min | 10 gal/h | 9.2 gal |
| SBRJ a SBGL | 15 min | 10 gal/h | 2.5 gal |
| Reserva 45 min | 45 min | 10 gal/h | 7.5 gal |
| Contingência 5% | — | — | 0.5 gal |
| Total | — | — | 21.0 gal |
Com o Cessna 172S (53 galões utilizáveis), 21 galões representam apenas 40% da capacidade. A alternativa tem impacto moderado no combustÃvel total. Para mais detalhes sobre o cálculo completo de combustÃvel e reservas, consulte nosso guia especÃfico.
Quando a alternativa é dispensada
Quando a regra 1-2-3 permite dispensar a alternativa, o combustÃvel de alternativa não é obrigatório. Porém, a reserva final de 45 minutos permanece obrigatória. Muitos pilotos mantêm o combustÃvel de alternativa mesmo quando dispensado, como margem adicional de segurança.
Comparação de consumo por trecho
Para visualizar o impacto da alternativa no planejamento de combustÃvel, considere três cenários com o mesmo voo SBSP-SBRJ em um Cessna 172S (consumo 10 gal/h):
| Cenário | Trip | Alternativa | Reserva | Contingência | Total | % capacidade |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Sem alternativa | 9.2 | 0 | 7.5 | 0.5 | 18.5 gal | 35% |
| SBGL como alternativa | 9.2 | 2.5 | 7.5 | 0.5 | 21.0 gal | 40% |
| SBKP como alternativa | 9.2 | 6.0 | 7.5 | 0.5 | 24.5 gal | 46% |
Com o Cessna 172S e seus 53 galões utilizáveis, a alternativa SBKP consome apenas 6% a mais da capacidade total comparada ao cenário sem alternativa. O custo em combustÃvel é mÃnimo comparado ao benefÃcio de segurança.
CombustÃvel mÃnimo de pouso
O piloto deve garantir que, ao pousar na alternativa, ainda tenha a reserva final de 45 minutos. A reserva final é o combustÃvel que NUNCA deve ser consumido em operação normal. Se o piloto aterrissa com menos que a reserva final, deve reportar o evento à autoridade aeronáutica.
Alternativa de decolagem e alternativa em rota
Alternativa de decolagem (TALT)
A alternativa de decolagem é um aeródromo próximo ao de partida, utilizado caso a aeronave precise retornar logo após a decolagem (ex: problema mecânico) e o aeródromo de partida esteja abaixo dos mÃnimos para aproximação.
O RBAC 91.169 exige alternativa de decolagem quando as condições no aeródromo de partida estão abaixo dos mÃnimos operacionais de pouso. A alternativa de decolagem deve estar:
- A no máximo 1 hora de voo (monomotor) ou 2 horas (bimotor) do aeródromo de partida
- Com condições meteorológicas acima dos mÃnimos de alternativa
A alternativa de decolagem é declarada no Campo 18 do plano de voo com o subcódigo TALT/.
Alternativa em rota (RALT)
A alternativa em rota é utilizada para voos longos, sobre oceano ou áreas remotas. É um aeródromo ao longo da rota onde a aeronave pode pousar caso ocorra uma emergência ou degradação de performance (ex: perda de motor em bimotor).
No Brasil, alternativas em rota são comuns para voos sobre a floresta amazônica, onde a cobertura radar é limitada e os aeródromos são espaçados. É declarada no Campo 18 com o subcódigo RALT/.
Definição: A alternativa em rota (en-route alternate) é um aeródromo adequado situado ao longo da rota planejada, ou em desvio razoável, que pode servir como destino em caso de necessidade de desvio durante a fase de cruzeiro. O RBAC 121 exige alternativas em rota para voos ETOPS (Extended Operations), e na aviação geral elas são recomendadas para voos longos.
Exemplos práticos em cenários brasileiros
Cenário 1: SBSP com frente fria — escolha de alternativa
Situação: Voo IFR de SBCF (Confins) para SBSP (Congonhas). TAF de SBSP indica:
TAF SBSP 231000Z 2312/2412 36010KT 9999 SCT020
TEMPO 2316/2324 3000 RA BKN008 OVC015
BECMG 2402/2404 18005KT 9999 FEW030
ETA em SBSP: 18:00 UTC. Janela 1-2-3: 17:00-19:00 UTC.
Análise: O TEMPO 2316/2324 (16:00-24:00) cobre toda a janela. Condições TEMPO: visibilidade 3.000 m (abaixo de 5.000 m), teto 800 ft (BKN008, abaixo de 2.000 ft). Alternativa obrigatória.
Escolha de alternativa:
| Alternativa candidata | Distância de SBSP | Prós | Contras |
|---|---|---|---|
| SBGR (Guarulhos) | 25 km | Muito perto, múltiplos ILS | Mesmo sistema meteorológico |
| SBKP (Campinas) | 80 km | ILS, infraestrutura | Possivelmente afetado pela mesma frente |
| SBRJ (Santos Dumont) | 360 km | ILS, diferente região meteorológica | Distante, mais combustÃvel |
| SBGL (Galeão) | 365 km | Múltiplos ILS, grande infraestrutura | Distante |
| SBSJ (São José dos Campos) | 85 km | ILS, elevação moderada | Pode estar na mesma frente |
TAF SBKP:
TAF SBKP 231000Z 2312/2412 36008KT 9999 SCT025
TEMPO 2318/2324 5000 RA BKN012
SBKP tem TEMPO com visibilidade 5.000 m e teto 1.200 ft (BKN012). Para ser alternativa com ILS (DA ~250 ft): mÃnimo teto 600 ft e vis 3.200 m. O TEMPO indica 1.200 ft e 5.000 m, ambos acima dos mÃnimos de alternativa. SBKP é válida.
TAF SBGL:
TAF SBGL 231000Z 2312/2412 18010KT 9999 FEW025 SCT040
SBGL sem restrições. Claramente válida como alternativa. Mais segura que SBKP, porém mais distante.
Decisão: Declarar SBKP como alternativa primária e, se houver dúvida, adicionar SBGL como segunda alternativa no Campo 16.
Cenário 2: SBRJ abaixo dos mÃnimos — alternativa SBGL
Situação: Voo VFR de SBMT (Campo de Marte, São Paulo) para SBRJ (Santos Dumont, Rio de Janeiro), com plano de voo IFR por haver travessia da serra.
ETA SBRJ: 15:00 UTC. METAR:
METAR SBRJ 231400Z 18012KT 2000 BR OVC003 18/17 Q1016
Teto 300 ft (OVC003), visibilidade 2.000 m. Condições IMC abaixo dos mÃnimos de aproximação. Alternativa SBGL (25 km):
METAR SBGL 231400Z 19008KT 7000 SCT012 BKN020 19/17 Q1016
Teto 1.200 ft (SCT012), visibilidade 7.000 m. MÃnimos de alternativa para ILS SBGL: teto 600 ft, vis 3.200 m. Condições em SBGL: 1.200 ft e 7.000 m. Acima dos mÃnimos. SBGL é válida.
Procedimento: O piloto voa para SBRJ e tenta a aproximação ILS pista 20. Se ao atingir a DA (200 ft) não tem referência visual, executa a arremetida e prossegue para SBGL (15 minutos de voo).
Cenário 3: quando dispensar a alternativa
Situação: Voo IFR de SBRJ para SBGL. ETA: 11:00 UTC.
TAF SBGL:
TAF SBGL 231000Z 2312/2412 18005KT 9999 FEW030 SCT060
Janela 1-2-3: 10:00-12:00 UTC. Condições: visibilidade > 10 km, sem teto (FEW030 = poucos a 3.000 ft, não constitui teto). Ambos critérios atendem a regra 1-2-3.
Decisão: Alternativa pode ser dispensada conforme RBAC 91.169. O piloto não precisa listar alternativa no Campo 16, e o combustÃvel de alternativa não é obrigatório. Porém, a reserva final de 45 minutos permanece obrigatória.
Cenário 4: voo longo com alternativa distante
Situação: Voo IFR de SBSP (Congonhas) para SBSV (Salvador). Distância: ~1.280 km. ETA SBSV: 16:00 UTC.
TAF SBSV:
TAF SBSV 231000Z 2312/2412 09015KT 9999 SCT025
TEMPO 2315/2319 5000 TSRA BKN012 FEW040CB
Janela 1-2-3: 15:00-17:00 UTC. TEMPO com visibilidade 5.000 m e teto 1.200 ft (BKN012) cobre parte da janela. Alternativa obrigatória.
Alternativas candidatas:
| Alternativa | Distância de SBSV | ILS | Meteorologia |
|---|---|---|---|
| SBIL (Ilhéus) | 315 km | Não (VOR apenas) | Diferente sistema |
| SBRF (Recife) | 800 km | Sim | Diferente sistema |
| SBVT (Vitória) | 1.060 km | Sim | Diferente sistema |
Para este voo longo, SBIL seria a alternativa mais próxima, mas sem ILS os mÃnimos de alternativa são mais altos (800 ft / 4.800 m). SBRF é distante mas com ILS e meteorologia independente. A escolha depende do combustÃvel disponÃvel e da análise meteorológica regional.
Com Cessna 172S, este voo exige atenção especial ao combustÃvel. Trip fuel SBSP-SBSV: ~32 galões. Alternativa SBIL: ~5 galões. Reserva 45 min: 7.5 galões. Total: ~45 galões de 53 disponÃveis. Margem apertada.
Quando dispensar a alternativa
Critérios de dispensa (resumo)
A alternativa de destino pode ser dispensada quando TODAS as condições abaixo são atendidas:
- A previsão (TAF) para o perÃodo de ETA -1h a ETA +1h indica:
- Teto >= 2.000 ft acima da elevação do aeródromo
- Visibilidade >= 5.000 m (3 SM)
- Não há grupos TEMPO ou BECMG que degradem as condições abaixo desses mÃnimos na janela
- O aeródromo de destino possui procedimento de aproximação por instrumentos publicado
Quando NÃO dispensar (mesmo que a regra permita)
Pilotos experientes frequentemente planejam alternativa mesmo quando a regra 1-2-3 permite dispensar. Situações onde a prudência recomenda manter a alternativa:
| Situação | Razão |
|---|---|
| TAF antigo (> 6 horas) | Previsão pode estar desatualizada |
| Região costeira (SBRJ, SBFL) | Nevoeiro pode formar-se rapidamente |
| PerÃodo noturno | Condições mudam mais rápido sem aquecimento solar |
| Aeródromo com histórico de fechamento | SBSP no inverno, SBRJ com brisa marÃtima |
| Voo longo (> 3 horas) | Previsão menos confiável para perÃodo distante |
| CombustÃvel justo | Alternativa como margem de segurança |
Planejamento de voo VFR
Para voos VFR, formalmente não há exigência regulamentar de alternativa de destino no RBAC 91. Contudo, é uma prática recomendada e prudente, especialmente para voos de navegação. O piloto VFR deve sempre ter um "plano B" mental, mesmo que não declare no formulário. Para mais informações sobre planejamento de voo VFR, consulte nosso guia completo.
Perguntas frequentes
A alternativa pode ser o mesmo aeródromo de destino?
Não. A alternativa deve ser um aeródromo diferente do destino. O conceito de alternativa é justamente ter um destino substituto quando o principal não é utilizável. Se o piloto retorna ao aeródromo de destino após uma arremetida e pousa na segunda tentativa, isso não é uso da alternativa, é simplesmente uma segunda aproximação.
Posso listar mais de uma alternativa?
Sim. O Campo 16 do plano de voo ICAO permite até duas alternativas de destino. Alternativas adicionais (terceira em diante) devem ser listadas no Campo 18 com o subcódigo ALTN/. Listar múltiplas alternativas é uma prática prudente quando as condições meteorológicas são marginais em toda a região.
E se a alternativa também ficar abaixo dos mÃnimos durante o voo?
Essa é uma situação crÃtica que deve ser evitada pelo planejamento adequado. Se durante o voo o piloto recebe informação de que a alternativa também está abaixo dos mÃnimos, ele deve: (1) considerar divertir para outra alternativa não planejada, (2) comunicar ao ATC a situação, (3) declarar emergência se o combustÃvel estiver crÃtico. Para evitar essa situação, escolha alternativas em regiões meteorológicas diferentes e monitore os METARs durante o voo.
Qual a diferença entre mÃnimos de alternativa e mÃnimos operacionais?
Os mÃnimos operacionais (de pouso) são os publicados no procedimento de aproximação (DA/MDA). O piloto pode descer até esses mÃnimos e pousar se tiver referência visual. Os mÃnimos de alternativa são mais altos (DA + 200 ft, vis + 1.600 m) e servem para garantir que, ao chegar na alternativa, as condições permitam pouso com margem de segurança. O piloto não precisa que a alternativa esteja acima dos mÃnimos de alternativa no momento do pouso, apenas na previsão durante o planejamento.
A alternativa precisa ter o mesmo tipo de procedimento que o destino?
Não. A alternativa precisa ter pelo menos um procedimento de aproximação por instrumentos (IAP) publicado e ativo, mas não precisa ser do mesmo tipo. Se o destino tem ILS e a alternativa só tem VOR, isso é aceitável, desde que as condições meteorológicas estejam acima dos mÃnimos de alternativa para procedimento VOR (que são mais altos que para ILS).
O combustÃvel de alternativa é calculado na velocidade de cruzeiro ou descida?
O trecho do destino à alternativa deve ser planejado como um voo completo: subida após a arremetida no destino, cruzeiro até a alternativa, descida e aproximação na alternativa. O consumo de combustÃvel deve considerar todas essas fases. Na prática, muitos pilotos simplificam usando o consumo de cruzeiro para o tempo de voo estimado, o que é ligeiramente conservador (a fase de descida consome menos).
O que é EDTO e quando preciso de alternativa em rota?
EDTO (Extended Diversion Time Operations), anteriormente ETOPS, aplica-se a operações de bimotores em rotas onde pontos adequados para pouso de emergência estão além de um tempo limite. Para a aviação geral brasileira, EDTO raramente se aplica. A alternativa em rota (RALT) é recomendada para voos longos sobre a Amazônia, o oceano ou regiões sem aeródromos próximos, mas não é obrigatória pelo RBAC 91 para aviação geral.
A alternativa pode ser um aeródromo VFR?
Não para voos IFR. A alternativa de destino para um voo IFR deve possuir procedimento de aproximação por instrumentos (IAP) publicado e ativo. Um aeródromo sem procedimento IFR não pode ser declarado como alternativa IFR. Porém, em situação de emergência, o piloto pode pousar em qualquer aeródromo adequado, incluindo aeródromos VFR, pois a emergência prevalece sobre as restrições regulamentares.
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Fontes: RBAC 91.167 (ANAC — Requisitos de CombustÃvel), RBAC 91.169 (ANAC — Planejamento IFR), ICA 100-11 (DECEA — Plano de Voo), ICAO Annex 2 (Rules of the Air), ICAO Annex 6 (Operation of Aircraft), ICAO Doc 4444 (PANS-ATM).
Última atualização: Fevereiro 2026. Conteúdo revisado por piloto comercial ANAC com habilitação IFR.
